Rosamond Halsey Carr : O país das mil colinas.

tania navarro swain

 

 

« Le mépris du patriarcat dominant envers l´œuvre des femmes [...] est une chose très subtile[...] le dominant n´en a souvent même pas conscience, ce qui équivaut à mépriser doublement. »

Elfriede Jelinek

Resumo:

As mulheres de aventura mostram a capacidade e o destemor não apenas de se lançar em projetos impensáveis para a imagem de fragilidade e incompetencia do feminino, mas igualmente expõem um processo de subjetivação que faz explodir os limites das normas e de um patriarcado sempre vigilante. Rosamond criou e aceitou todos os desafios que se colocaram em sua trajetória: viveu independente, trabalhou e criou raízes em terras estranhas, fez delas seu lar e seu destino. Através de guerras e massacres, sobreviveu para narrar sua trajetória e suas experiências. A história de Rosamond é uma histõria do possivel, na qual as mulheres não são assujeitadas nem limitadas às condições de produção do feminino de sua época.

Palavras-chave: aventura, mulheres, Africa, subjetivação.

 

 

No domínio  das ciências e sobretudo da história, o silencio que apaga a obra e a presença das mulheres é não somente sinal de desprezo, mas também do medo da perda de uma posição de dominação. Com efeito, a importância do masculino não existe senão velando a ação e a existência do feminino. Negar o papel social e político das mulheres significa assegurar a supremacia dos homens na tradição e no imaginário social, sob a égide de uma natureza mistificada e reinventada constantemente.         

É assim que as mulheres desaparecem do mundo do trabalho, da política, da aventura, da ação que transforma as sociedades, da escrita, da arte e da criação, em detrimento de suas qualidades, capacidades, enviadas assim às fraldas, à domesticidade, à subordinação.

O discurso histórico/ social esconde muito mais a verdade do que a evidencia. As mulheres, ao longo da história da humanidade agiram em todos os domínios do social e econômico, exerceram papéis ocultos sob as “verdades” históricas que  desconsideram a diversidade das formações sociais. O molde criado e difundido pelo patriarcado enclausura as mulheres para melhor afastá-las de toda forma de poder.

As mulheres de aventura são exemplos da quebra infligida a estes moldes patriarcais, no âmbito mesmo de seus preceitos mais básicos.  Abrem igualmente as possibilidades de pensar sociedades que, no passado, não seguiam as normas ou não adotavam os valores defendidos pelo patriarcado. Sociedades que não eram necessariamente regidas pelo sexo biológico nem pela “natureza” dos seres humanos; por que a sabedoria, a idade, a habilidade, a criatividade não seriam motores das relações sociais?

As mulheres de aventura estilhaçam o silencio e as amarras das representações sociais que destinam o feminino ao assujeitamento.

Nas sociedades patriarcais, todas as conquistas das mulheres são fruto de lutas ferozes; entretanto, o processo de subjetivação de alguns exemplos,  lhes permite  ultrapassar os obstáculos e  objetivar os papéis que os historiadores insistem em ignorar, ofuscados  pelos véus que eles mesmos criaram. Assim como estas que conseguimos desvelar, quantas outras não teriam feito o mesmo, soterradas pela história?

         É o caso de  Rosamond Halsey Carr

 

No coração da África:  Rosamond em Ruanda

Seu nome era  Rosamond Halsey Carr[1]  e a narrativa de sua vida é uma verdadeira lição de história da África central e da subjetivação de uma mulher!

O livro no qual narra suas peripécias chama-se  “ Le pays aux mille collines », Ruanda.

Rosamond, a partir de 1949 viveu a aventura de uma vida quase solitária na África,  marcada por um breve casamento e alguns amores passageiros, mas sua  companhia constante eram seus animais, seus empregados e suas famílias, dos quais alguns/umas tornaram-se verdadeiros/as amigos/as.

Trabalhou como gerente de propriedades agrícolas em Ruanda, tendo sua direção centenas de pessoas, nos anos 1950. Para gerir estes domínios o trabalho era  incansável: percorria a pé quilômetros de plantação todos os dias, para supervisar a colheita e a secagem das plantas,  tratar com os chefes de grupos, ocupar-se  do abastecimento, da venda da produção, da contabilidade, de tudo que compreendia a gestão das fazendas.

 

 

Ruanda é um pequenino país, encravado entre o Congo, a Tanzânia, Uganda e Burundi.No coração da África dos Grandes Lagos, com uma superfície de26,338 km² (a metade da Suíça) Ruanda conta atualmente com cerca de 19 milhões de habitantes. Neste território encontra-se uma cadeia de vulcões, o pântano de Akagera e Bufesera, o maciço florestal de Nuyngwe e o lago Kivu, cujas águas delimitam a fronteira com a República Democrática do Congo. É nas margens do Kiwu que Rosamond viverá a aventura de sua vida.

A história do Ruanda foi feita de invasões e dominações: em primeiro lugar, no século XI, os Hutus deslocaram os primeiros habitantes, os Btwas (pigmeus) para a floresta; em seguida, em torno do século XV, chegaram os Tutsis, não se sabe bem de onde, do Egito ou da Abissínia e instalaram uma monarquia de origem pretensamente divina.

Se os Hutus eram camponeses, os Tutsis eram pastores e possuíam rebanhos que constituíam principal signo de riqueza. Isto lhes permitiu a condição de etnia dominante. A partir do século XIX, a colonização europeia impôs-se sobre todo o território e sua população, que se tornou majoritariamente cristã. A hierarquia social e econômica foi, entretanto, mantida.

 

Em 1949, o rei era Tudahigwa. Para o registro da pequena história, media 2,06m “ o maior monarca do mundo”, ironiza Rosamond. (165)

Em 1957, completava 25 anos de reinado e a festa de seu jubileu foi grandiosa.

“ O rei, vestido de branco, vestia uma capa azul. Seu penteado de sisal branco decorado de uma faixa de pérolas azuis e brancas cascateava. A rainha Rosalie  Gicanda  [...] partilhava o  poder com seu filho e era reverenciada por ele. Fisicamente assemelhava-se  ao rei e tinha um ar tão jovem que poderia ser confundida com  a rainha (esposa). Estes três personagens, investidos em sua solene dignidade, não sorriam e não respondiam às aclamações entusiastas da multidão.” (170)

As homenagens e os presentes eram recebidos na mais perfeita indiferença. Espantada, Rosamond  ouviu a reposta à sua questão:” Tudo em Ruanda pertence ao rei, então por que seria agradecido por receber o que é já dele?” (172)

 Rosamond vivenciou, porém, os acontecimentos da independência do Congo, de Ruanda e do Burundi e do Quênia, com todas os vagalhões políticos e as lutas armadas que se seguiram. Conheceu o medo e o terror das guerras e do terrível genocídio dos anos 1990. Mas apesar disto, ela amou a terra e seus habitantes, a ponto de lá viver toda sua vida e arriscá-la muitas vezes para sua proteção, sobretudo as crianças. Nas primeiras palavras de seu livro, faz um rápido balanço:

« Sobrevivi às guerras civis, às revoluções e a uma das maiores tragédias humanas de nosso tempo, o genocídio de 1994. Mais de uma vez, minha casa foi ocupada por soldados. [...] Vivi grandes felicidades e terríveis penas. [...] Subi de barco o rio Congo e acampei nas aldeias dos pigmeus. [...] Os elefantes vaguearam em minhas terras e partilhei a vivência dos gorilas. [...] Ruanda sempre foi para mim o mais belo lugar do mundo. Minha pequena  casa, coberta de vinha virgem, eleva-se sobre uma colina cercada de jardins ingleses e altas cercas de hydrageas. Não tenho ainda eletricidade e telefone. [...] Mesmo assim, o chá é servido às quatro e meia e todas as tardes, as garças coroadas veem se empoleirar na folhagem espessa dos dragonniers. [...] Cada noite, o Nyiragongo, vulcão em atividade, ilumina o céu a oeste. Os dias de bom tempo posso perceber, ao longe, o lago Kvu. Enfim e, sobretudo, o céu da África é sempre o mais estrelado. (PMC,12-13)

Pequena história

Quando nasceu, em uma família abastada, os movimentos pela igualdade entre mulheres e homens estavam em plena força nos Estados Unidos, principalmente com as reivindiques pelo direito de voto.  Rosamond conheceu assim uma época em que as mulheres exigiam autonomia e liberdad

 

Por outro lado, a primeira guerra mundial havia reduzido as coerções sofridas pelas mulheres, tendo em vista o esforço de guerra que necessitava sua mão de obra. [2]

Por ocasião do crack financeiro de 1929, a riqueza da família de Rosamond foi fortemente abalada. Ela confessa ter tido medo da pobreza e da falta de dinheiro por toda sua vida, depois destes acontecimentos. (PMC, 20).

Rosamond não podia mais pensar em ir para a universidade nas condições em que se encontrou sua família, mas conseguiu se inscrever na Traphagen School of Fashion Design e obteve uma bolsa  para um curso de desenho. Assim, seu primeiro emprego foi de ilustradora de moda e arranjo de vitrines. Um trabalho bem adequado a uma jovem!Conseguiu então mudar-se para um apartamento e viver por sua própria conta: assim, o início de sua vida profissional fez-se sob o signo da independência. Seu círculo de amigos/as  era composto da “boa sociedade” de Manhattan.Foi com 30 anos que conheceu o caçador, cineasta e fotógrafo das planícies africanas,   Kenneth Carr,  24 anos mais velho que ela.

Com este contato, seu espírito de aventura, ainda latente, desperta para nunca mais desaparecer.

“ Não poderia senão ficar fascinada por este personagem, mas o fui ainda mais pelas imagens exóticas projetadas na tela.”

Casou-se em 1942, um casamento frustrante: Rosamand sustentava o casal com seu trabalho de desenhista de moda, especializada em chapéus femininos, que eram vendidos nas grandes lojas. . (PMC,2004 :25)  Seu galante e aventureiro marido não produzia um tostão. Resolveram em 1949 salvar sua vida em comum mudando drasticamente  de vida. Partiram para a África.

Nas lendas narradas pela história a respeito do feminino, as mulheres são sempre dependentes dos maridos, de suas famílias, em um sistema sexo / gênero imutável. A manutenção do sistema patriarcal depende do imaginário que reduz as mulheres à domesticidade  como destino e função em moldes hierárquicos, onde o macho é dominante em todos os setores, sobretudo o da economia.

Ora, o exemplo do casamento de Rosamond, que não é absolutamente um caso isolado, cujo trabalho é a fonte da renda para sua vida em comum, faz-nos pensar nas infinitas possibilidades de arranjos sociais onde as normas e valores seriam diferentes do que estamos habituados no mundo patriarcal. [3]

Os Mosuo, na China, são é um exemplo contemporâneo de uma sociedade dirigida por mulheres..[4] Se esta formação social existe , que poderíamos dizer das possiblidades sociais e culturais durante milhares de anos, desde que a humanidade existe?

Como se consegue velar o imaginário a tal ponto que não se possa nem mesmo pensar um quadro diferente do sistema sexo / gênero e suas implicações funestas sobre as mulheres? O que a história, não diz, não existiu.... em detrimento sobretudo das mulheres.

A escrita de si

 Rosamond é um exemplo da escrita de si, de um processo de subjetivação  que transforma os valores de sua época na experiência de vida que a constrói.  Com efeito, tornamo-nos sujeito na prática dos signos, da linguagem, da ação, em sua incorporação ou re- significação.

Teresa de Lauretis escrevia, em 1984, que a experiência era uma negociação entre o sujeito e o social, uma semiosis , da qual os efeitos constitutivos seriam em constante modificação. (de Lauretis, 1984:182)É assim, que para esta autora, a experiência é uma “complexa de hábitos, de disposições, de associações, de percepções” (idem) dos elementos de uma escrita de si, esta última considerada por Foucault como

“ Transposição ou transformação de valores e normas que circulam enquanto verdades em ehtos, uma askésis que se compreende como um treinamento de si para si...” (DE IV 417)

As mulheres de aventura são, com efeito, mulheres comuns, como Rosamond que, entretanto, traçam um caminho fora das marcas de um feminino assujeitado. Foram legiões, desconhecidas, entretanto, em um silencio que solidifica as garras do patriarcado sobre a história, para melhor marcar a subordinação “natural” das mulheres, sua pretensa fraqueza e sua dependência mental e física.

Não, o feminino e o masculino não foram definidos desde “sempre” em seus papéis sociais, a partir de órgãos genitais. Não se pode afirmar que houve partilhas binárias baseadas sobre o sexo em todas as sociedades e em todos os tempos. É esta uma postura a- histórica, uma impostura, afinal.Toda sociedade faz circular valores e normas e de toda evidencia, não são iguais no decorrer do tempo; é a premissa assumida de uma “natureza” que faz tabula rasa da diversidade na constituição das funções sociais.

A importância dada ao sexo parte de um imaginário no qual a reprodução é o eixo central da vida; ora, a conservação da vida é talvez a atividade social mais importante e esta perspectiva muda completamente os dados do agenciamento humano que se encontra orientado por outros valores e fatores que não seja necessariamente o sexo biológico.  É o que falta à história: a modificação das premissas binárias iniciais ou o abandono de pressupostos decadentes.

As mulheres que denomino «  de aventura » não somente tomaram suas vidas entre suas mãos, mas igualmente mostraram que não se nasce “mulher”. Realizaram, com efeito, a escrita de si, fora dos moldes construtores do feminino. Se a histórias as apagou, foi para melhor inscrever nos “fatos” o papel “natural” e o “universal” reservado ao feminino em todas as sociedades e todos os tempos.

Se, na verdade, encontra-se na natureza o binário fêmea e macho, isto não justifica a existência universal e a-temporal de um feminino e um masculino atrelados à tarefas sociais definidas por seus órgãos genitais. Não há gênero fora de práticas de gênero, sublinha Judith Butler. E estas práticas não são nem universais, nem homogêneas nas singularidades temporais das formações sociais.

Os discursos históricos, antropológicos e outros, que postulam leis binárias sobre a divisão humana, não fazem senão criar e manter um biopoder patriarcal manipulador  sobre a memória social. Ora, as práticas sociais são móveis e a escrita de si das mulheres de aventura o provam.Esta escrita de si revela-se, entre outras fontes, nas narrativas literárias que utilizo, para melhor as descobrir. As mulheres de aventura inscrevem sua presença e sua ação nos quadros sociais considerados fechados a toda veleidade de independência das mulheres.

Em tradições e épocas diversas, percorreram o mundo, por vales e montanhas, exerceram as mais « masculinas » das profissões; ricas ou pobres, solteiras ou casadas, elas não aceitaram jamais um traçados definitivo para suas vidas. E, sobretudo, não a determinaram  por seus corpos e as significações sociais que lhes eram atribuídas.

 Para as mulheres de aventura, a semiosis da qual nos ilustra Teresa de Lauretis procede de um processo de subjetivação na consciência e na transformação das normas e valores que deveriam assujeitá-las. Elas se escrevem atravessando as significações que lhes dão existência.

As mulheres de aventura não representam exceções que confirmariam a regra da dependência e da submissão. Elas simplesmente desenharam seus destinos por uma escrita transformadora de si, que aponta para as brechas de um sistema patriarcal nem tão sólido como querem nos fazer acreditar.

Os livros onde contam suas aventuras são de fato uma fonte histórica que se interessa às condições de produção e de imaginação das formações social fora dos pressupostos patriarcais. Pode-se assim constatar que as normas e valores que asseguram a dominação masculina não são impermeáveis à iniciativa e à independência de um grande número de mulheres, excluídas do discurso social e científico. Mesmo quando a obra de uma mulher é grandiosa, como a de Madame Curie, tentou-se uma desmoralização de seu personagem, atribuindo-lhe amantes ou infidelidades diversas.

Se não se fala, se não se mostra um mundo diferentes das imagens e das significações recebidas, reiteradas pela história,  antropologia, sociologia, filosofia e outras disciplinas, o universal da divisão hierárquica do mundo pelo sexo cai no domínio, do “natural” que não merece sequer ser mencionada, pois evidente. São estas “verdades eternas” quer sejam enunciadas pela  ciência ou pela religião , que apagam as obras e a ação das mulheres no mundo.

 A África

E que a  aventura comece !

Chegam – ela e seu marido - em agosto 1949 em Matadi, porto do Congo Belga no Atlantico. Seu destino era Ruanda, na época chamado Ruanda-Uurundi.

“É a grande aventura que eu esperava desde sempre e, cheia de temeridade, a ela lancei-me como de hábito com uma determinação sem falhas”. (PMC,28)

A primeira noite em terra revelou-se um pequeno início « simpático » da vida africana:

« Não havia nenhum quarto livre no único hotel da cidade e ficamos em uma pensão miserável, cheia de marinhos bêbados e de baratas de uns 10 cm de tamanho. Os sanitários reduziam-se a um   penico sob a cama e o mosquiteiro tinha buracos tão grandes quanto uma mão. » (PMC,22)

A viagem até Ruanda compreendia várias etapas, com uma duração de 14 dias. Do porto em Leopoldville e de lá, a travessia da floresta equatorial no rio Congo, uma expedição de 2 000  km em um barco. A cabine não comportava duas pessoas, tinham que reversar-se para  ocupá-la  ; não falavam francês nem a língua nativa para se comunicar com os outros passageiros ou os tripulantes.

«[...]  as moscas tsé-tsé e os mosquitos abundavam, a comida servida a bordo era atroz. [...] O calor e a umidade eram insuportáveis, o ar sufocante vibrava com ruídos amedrontadores.  » (PMC, 31)

Este início não se apresentava como promissor. Queriam visitar um amigo de Kenneth, um antropólogo famoso, que havia instalado um hotel em plena floresta de Ituri. Encontraram-no em plena decadência. E isto também não era de bom augúrio.

Continuaram entretanto, seu caminho para o  lago Kivu, onde Kenneth queria fazer prospecção aurífera. Mais duas semanas  nos lamaçais da floresta virgem,  completando 3000 km nos mais diversos meios de transporte, e finalmente chegaram.

Era um esplendor.

« Pude contemplar manadas de elefantes, de búfalos, de antílopes e zebra. […] Enfim atingimos nosso destino: a região luxuriante e montanhosa do Kivu. Todos meus receios de dissolveram na descoberta do mais lindo lugar que já havia visto: o lago Kibu, cujas águas cristalinas encontravam-se rodeadas de altas montanhas e bordejadas por plantações de café » PMC,35)

 

Rosamond faz uma narrativa bem detalhada das margens do Kivu, que se encontrava, de fato, na fronteira entre o Congo e Ruanda. Os vilarejos de  Kisenyi em Ruanda e de Goma, no Congo, à época eram os dois centros administrativos belgas destes países.

Ruanda não conheceu a ignóbil colonização e os horrores perpetrados pelo rei Leopoldo II da Bélgica e seus cúmplices no Congo ; este último era chamado de « país das mão decepadas » pois esta prática era habitual como castigo aos trabalhadores pouco produtivos As mulheres, por sua vez, eram comercializadas como força de trabalho ou escravas sexuais. [5] 

Quanto a Ruanda, Rosamond não comenta este assunto e mostra-se mesmo ingênua quanto às relações de dominação dos colonos sobre as mulheres ruandesas :

«[…] numerosos europeus do Kivu tinham uma amante africana – que às vezes tornavam-se suas esposas. Deste modo, belas crianças mestiças cresciam em Kisenyi, Goma et Bukavu. »

Em 1908 o Congo passou a ser protetorado do estado belga, denominado então Congo Belga; o Ruanda e o Burundi, por sua vez, faziam parte da África alemã entre 1894 e 1918. Em 1924, a Sociedade das Nações Unidas colocara o território de Ruanda-Burundi sob um mandato belga, que seria transformado em tutela em 1945. Em 1961 Ruanda se declara República independente, separando-se do Burundi, que se tornará o Urundi.

A administração belga apoiava-se na realeza ruandesa, os Tutsi, para estabelecer a ordem colonial e já em 1931 impunha o uso de uma carteira de identidade aos ruandeses, mencionado a comunidade à qual pertenciam, Hutu, Tustsi e Batwa. Isto contribuiu para exacerbar as tensões entre esta etnias e o genocídio de 1994 foi uma de suas consequências.

Em 1949 Rosamond vivia nas margens ocidentais do lago Kivu ( lado congolês)

«[...]  cobertas de plantações de café […] elegantes mansões europeias, escondidas nos hibiscos e os lauriers-roses;[...] Do lado ruandês, estendiam-se pequenas plantações de café que pertenciam aos Banyaruandezes. As culturas em terraço estendiam-se sobre os flancos das colinas escarpadas. Os vales eram as pastagens do gado com longos chinfres dos Tutsis. Os bougainvilles et as roseiras mostravam-se abundantes, enquanto as bananeiras traziam sombra às praias de areia  e às  numerosas e férteis ilhas.(PMC, 36-37)

Um local de sonho: parecia totalmente distante das brutalidades da exploração colonial.  Os dois centros administrativos belgas.

 Goma (côté Congo) e Kisennyi  encontravam-se  na extremidade norte do lago Kivu e Rosamond ali vinha buscar sua correspondência, fazer suas compras, ver seus amigos.Em 1949 a população europeia de Goma e Kisensyi era de 400 pessoas e de 700 em 1954, ai compreendidos os plantadores do entorno. (idem)

Rosamond comenta as pilhagens dos colonos :

« Em numerosos países africanos, os fazendeiros europeus semearam o grão da revolta.   No Quênia, por exemplo, os colonos brancos reclamavam as melhores terras […] que conduziu os Kikuyus, no que se denominou a revolta dos Mau-Mau, a lutar para recuperar suas possessões » PMC, 39)

Mas aparentemente em Ruanda as coisas não se passaram do mesmo modo. Rosamond explica que a administração belga havia, em 1938, regulamentado a superfície das parcelas de terra concedidas aos estrangeiros, com uma extensão de 90 ha cada.

Por outro lado, se podiam ser vendidas, era proibido criar novas parcelas. Isto estabeleceu definitivamente a diferença com o início da colonização belga: Leopoldo II tomou para si a totalidade do território do Congo em 1885 e distribuiu as terras a seu bel prazer, ignorando o trabalho forçado e os crimes contra a população nativa.

Em 1949 as principais plantações compunham-se de café e pyrèthre,[6] uma planta parecida com as margaridas, dotada de uma possante capacidade inseticida, explica Rosamond.

Os primeiros tempos

O início foi difícil.  Kenneth nunca obteve a autorização para prospectar os minerais do Ruanda e vivam em uma pequena casa do lado ruandês do lago Kivu.

«  Era uma encantadora construção de pedra , com um aluguel razoável. O único senão era que estivéssemos de acordo para conservar as quatorze pessoas que ali trabalhavam: quatro carregadores de água não potável, dois de água potável, quatro lenhadores, dois domésticos, um cozinheiro e seu adjunto.” (PMC, 41)

Isto representava muita gente a ser paga, principalmente porque não tinham nenhuma fonte de renda. Finalmente, um de seus amigos, proprietário de plantações no Congo e também em Ruanda, ofereceu-lhes a direção de uma dela no Congo, em Buniole.

O marido de Rosamond deveria ser o administrador, mas de fato ele estava constantemente em safaris e expedições, ( de caça, evidentemente: como todo macho europeu não podia viver sem este “esporte” sanguinário, pelo prazer de matar) enquanto Rosamond ficava só com os empregados.

 Assim, ela aprendeu a dirigir uma plantação,  percorrendo-a todos os dias com o karany, o responsável nativo da contabilidade, da organização e da supervisão do trabalho: era Cléophas, muito respeitado pelos trabalhadores . Foi fiel a ela  toda sua vida. Rosamond aprendeu rapidamente o swahili e logo podia comunicar-se com os empregados, num total de 180.

« Adorava as longas caminhadas pelos campos, as visitas à secadora de pyrèthre , saudando os trabalhadores e brincando com as crianças.. (PMC,51)

Buniole era uma plantação de pyrèthre de 500 há: 60 eram cultivados e os empregados com suas famílias ocupavam 80 há. O restante era a floresta.

« A floresta rodeava a plantação. Tão densa que era impossível de nela aventurar-se, salvo seguindo as trilhas abertas pelas manadas de elefantes, que ali habitavam.  ». (PMC,46)

Situada a 2100m de altitude, a plantação ficava isolada, distante de quase 100 km do vilarejo mais próximo. Os homens eram contratados por um ano, a princípio, com um total de 20 dias de trabalho por mês. Havia também os “voluntários” que trabalhavam apenas para pagar seu imposto anual, explica Rosamond. (PMC,49). As crianças  faziam a colheita, meninas e meninos, pagos segundo a quantidade de flores colhidas no mês o que representava um acréscimo importante à renda famílias. .(PMC,47)

Kenneth tratava mal os nativos, « puro produto da cultura colonial » e Rosamond encontrava-se no dever “ de ser amável pelos dois”(PMC,51) Com seu pequeno dispensário, chegava mesmo a tratar as diferentes doenças dos empregados e suas famílias. Diz ela:

“[...] filas de mulheres, seus bebes nos braços e pessoas de todas as idades se formavam diante da porta [...] sofriam de resfriados, de  febres, de inflamações dos olhos e dos ouvidos, de queimaduras, de vermes, de torsões, de dores de cabeça, irritação da pelo, dor de dente, vômitos, diarreias, cortes ou ressaca”

A escrita de si, iniciada já na América, ultrapassa então os quadros do casamento e de funções pré- estabelecidas para as mulheres. É de fato Rosamond que dirige a plantação e seu casamento perde rapidamente sua importância. A vida que a solicita acentua sua independência: quando o proprietário da plantação onde trabalhava no Congo

« [...] anunciou que partia por sete meses de férias na Europa e que buscava alguém para dirigir Mugongo, sua plantação em Ruanda, candidatei-me. Kenneth ficou estupefato que eu pudesse mesmo contemplar esta ideia que ele julgava deslocada e irracional. Eu era, segundo ele, totalmente incapaz de levar avante tal tarefa.” PMV,55)

Claro, seu marido “esquecera” que havia sido sustentado graças ao trabalho de Rosamond na América e que era ela que tocava a fazenda; tentava controla-la, menosprezando suas capacidades. Como o fazem grande maioria dos homens. Aliás, ele a proibia de dirigir, pois, segundo ele, as estradas eram muito perigosas. Estava sempre chocado com o espírito de independência de sua mulher!

 Mas felizmente, o proprietário das plantações, Gino, tinha inteira confiança em Rosamond. Assim, ela conseguiu finalmente o lugar de administradora da plantação com todas as responsabilidades sobre os trabalhadores e o cultivo em si, com um salário totalmente seu.

«  Abandonei meu marido e o único amigo na África (Gino) por um trabalho sobre o qual conhecia pouca coisa, em um lugar onde não conhecia ninguém e do qual não falava a língua.[...] Iria ficar verdadeiramente sozinha.”

A coragem não exclui o medo e sabia que esta aventura não seria fácil: uma mulher sozinha e estrangeira, única branca entre os negros, mergulhada em uma cultura totalmente diferente da sua, em um meio selvagem, muito longo do conforto de Nova York, sem eletricidade, sem ar condicionado, nem telefone.

Sua companhia eram sua cachorra e seu gato siamês;  sua coragem, seus medos, seu formidável desejo de aventura e de independência faziam parte de sua escrita de si, da experiência que fez dela um ícone para os ruandeses.

Desta vez, a plantação era em Ruanda, do outro lado do lago Kivu, chamada Mugongo. Assim como na propriedade anterior, havia um empregado  que se ocupava das contas, avaliava o pagamento de cada um por mês, atribuía férias e mediava os conflitos. Era Zacharia,  homem amável e consciencioso, como ela o descreve. Havia também 7 chefes para supervisionar 280 trabalhadores . .(PMC, 57) E no topo da hierarquia, a administradora, Rosamond.

“ O dia começava com a chamada no secador, onde eram determinadas as tarefas aos trabalhadores. [...] No meio da manhã, eu começava minha ronda de inspeção quotidiana: percorria quilômetros pelos campos ondulados e supervisionava o trabalho. Depois do almoço ainda era necessário inspecionar, assinar as dispensas do trabalho, estabelecer o programo do dia seguinte. Após, retorno ao secador para inspecionar a colheita.” (PMC, 57-58)

Uma vez por semana ia ao vilarejo para resolver os negócios, comprar provisões;  banhava-se no lago ou fazia piquenique na praia, geralmente sozinha. (PMC,60). Gino havia deixado um velho carro com uma partida especial: quatro ou cinco homens precisavam empurrá-lo e um chofer nativo... que não sabia dirigir. Ela considerava isto  muito divertido. (idem)

Ocupada  e maravilhada com seu trabalho e sua liberdade e com a paisagem que a rodeava, diz ela :

“ Voltando para casa sem me apressar, levantava os olhos e me extasiava com a beleza majestosa dos picos denteados do Mikeno e do cimo coroado de neve do kirisimbi, às vezes obscurecido pelas nuvens e meu coração transbordava de alegria, enquanto as florestas de bambu brilhavam no sol poente. O chá era servido próximo ao fogo brando e os quatro cães de  Gino e Sheila embolados a meus pés, meditava sobre o dia e perguntava-me o que os próximos me trariam. “(PMC, 58)

Sua administração fora um sucesso e o proprietário, Gino, ficara encantado. Entretanto, seu contrato chegava ao fim. Decidiu então ir visitar sua família nos Estados Unidos, mas a África permanecia no centro de seus pensamentos. Voltou a Ruanda , pediu o divórcio e retoma a administração da antiga propriedade de Gino, que ela já havia administrado, Buniole, no Congo.

«  Em fevereiro de 1954 , com minhas bagagens parti sozinha para o Congo. Estava feliz de reencontrar esta região de Buniole.[...] Desejava sobretudo ficar na África. Não podia fracassar.”(PMC, 67)

       

A propriedade estava ao abandono, os campos de pyrèthre invadido pelas ervas daninhas,  e Rosamond foi acolhida pelos empregados e suas famílias festivamente:

«  O dia todo,  as pessoas vinham me desejar boas vindas oferecendo-me ovos, e legumes de suas hortas. Meu velho amigo Cléophas, na porta, tinha nos braços uma galinha gorda e um cesto de batatas [...] Sentada, contemplando o fogo, fui invadida por um imenso sentimento de paz. . (PNC,71) Depois de tantos meses de tristeza e agitação, sentia-me enfim de retorno em casa. » (69)

Os anos 1950 foram, no Congo, teatro de transformações políticas que culminaram com sua independência em 1960. Os estrangeiros, proprietários de terra, em sua maioria foram embora, pois suas propriedades haviam sido confiscadas. Alguns foram mesmo massacrados com facão, tal como o casal Anne / Karin, amigos de Rosamond.

Entretempo, ela dedicou-se inteiramente a seu trabalho de colocar em condição de produção a propriedade da qual era novamente a única responsável.

A experiência a que se refere de Lauretis, toma aqui todo seu significado, na medida em que Rosamond negocia sem cessar sua subjetivação com as condições de produção de sua existência. De fato, ela as escolhe. As condições materiais se modificavam rapidamente em suas idas e vindas entre o Congo e Ruanda.

Ela vivia um renovar constante de sua consciência e de suas capacidade, ou melhor ainda, da consciência de suas capacidades. Os trabalhadores estavam  felizes com sua volta e queriam saber se ela iria ficar para sempre. Ela mesma, porém, devia enfrentar suas apreensões assim que chegara em Buniole:

« Submersa pela emoção e a fadiga, engoli rapidamente meu jantar e joguei-me na cama , presa pela inquietação. Seria eu capaz de dirigir Buniole sozinha? Seria eu capaz de afrontar tal isolamento  a 13 km do vizinho mais próximo?»(69)

Mas este trabalho ela já o havia feito e bem feito. O proprietário das terras o sabia e não havia hesitado e colocar entre suas mãos uma produção cujos rendimentos eram importantes.

Muitas vezes é a falta de oportunidade que impede o desabrochar das mulheres em todos os domínios. É a representação social de fragilidade e de incompetência do feminino que cria as mulheres neste molde.  E os discursos sociais retomam e reproduzem o refrão do “natural”,  do “ sempre foi assim”.

As mulheres de aventura são o exemplo de mulheres que aproveitaram uma ocasião ou a criaram, segundo um processo de subjetivação feito de autonomia, de consciência e de ação.

A solidão era bem temperada:

“ No decorrer dos meses, conheci todas as famílias de Buniole. Cada manhã, a fila crescia mais e mais na porta dos fundos. Nem todo mundo vinha porém para o dispensário. Vinham também se apresentar a mim ou solicitar minha opinião sobre algum acontecimento recente e com frequência pediam-me para mediar as disputas ou arbitrar as brigas sem fim” (73)

O trabalho era incessante e fatigante: Gino, o proprietário, havia lhe pedido que aumentasse a superfície da plantação o que significava abrir espaço na floresta. Ela precisava então acompanhar os trabalhos, inspecionar, decidir, organizar, afrontar os leopardos e outros animais selvagens nesta tarefa, com certeza inglória. Mas reservava-se um pequeno luxo.

« Cada dia andava quilômetros para inspecionar a plantação. Algumas vezes os campos estavam inundados e eu utilizava um tipoy , uma grande cadeira feita de bambu e transportada por quatro homens”(76)

Rosamond tinha alguns amigos e uma vida social muito limitada, mas encontrava de vez em quando alguns europeus que também viviam nos arredores ou estavam de passagem. Ela narra em um capítulo de seu livro a vida extravagante que levavam, conduzindo Rolls-Royce em estradas quase intransitáveis, morando em luxuosas mansões, personagens pitorescos, muitos deles oriundos de grandes famílias da Europa.

“ Havia também, em número igual, aventureiros, homens e mulheres, voluntariosos e indomáveis, que trabalhavam duramente, jogavam muito e se distraiam na companhia uns dos outros. Organizavam  reuniões endiabradas, engajavam-se em competições ruidosas e se compraziam em hobbies cheios de fantasia.”(79)

Foi assim que conheceu Cecil :

“Foi o homem melhor e mais atencioso que conheci, mostrando calma nos momentos difíceis, sensível, generoso.  Sabíamos, desde o começo, que ele não poderia ficar indefinidamente na África, mas resolvemos aproveitar o máximo do tempo que nos era dado e foi o que fizemos”. (102)

Efetivamente, obrigado a voltar para a Inglaterra, Cecil pediu-a em casamento.

“ Eu não queria partir e ele não podia ficar. Amava muito Cecil, porém me dei conta que amava a África ainda mais. Não deveria me arrepender desta decisão. Ainda que nos correspondêssemos durante anos, nunca mais revi Cecil, depois que deixei Buniole. (idem)

Rosamond ficou um ano na direção de Buniole até que Gino, de repente, decidiu vender a propriedade. Ela ficou transtornada:

« Parecia ter chegado a hora de deixar a África e voltar para casa, na América. Porém, cada vez que pensava em partir parecia-me que era tarde demais. Esta terra me havia possuído, corpo e espírito. Não me permitia ir embora. Há muito tempo ia e vinha de um lugar a outro. Se a África devia se tornar meu país, já era tempo de criar raízes.”(97)

E esta decisão foi definitiva.

Deixar Buniole, porém, foi para ela um acontecimento muito perturbador: deixava  neste lugar pessoas às quais era ligada, uma propriedade  que havia feito prosperar, abandonar ou perder algo é sempre difícil.

" Cleophas disse-me até breve rapidamente e seguiu seu novo empregador pelos campos. Os homens vieram apertar as mãos e as crianças alinhadas na beira da estrada gritavam: Kwa heri, Madami ! Sheila instalou-se no banco dianteiro, sua cabeça sobre meus joelhos. Mia pulava sobre as bagagens. Pela última vez, os olhos cheios de lágrimas, dirigi a velha pick-up na lama, nas beiras e nos zig-zags da estrada de Buniole.”(102)

Finalmente, Rosamond conseguiu se instalar em outro lugar. Gino, seu eterno amigo, ofereceu vender-lhe uma parte de Mugongo, em Ruanda. E foi assim que se tornou proprietária de terras neste país onde viveria o resto de sua longa vida. E além de sua nova propriedade, dirigia uma outra, vizinha, Milindi . Tinha 43 anos.

E entretempos, as lutas entre congoleses, ruandeses, ugandeses, os choques entre Hutus e Tutsis criavam um clima de instabilidade  política às vésperas da independência..

Rosamond ocupava-se de mais de 300 trabalhadores, uma enorme quantidade de trabalho, mas ela se sentia ótima: Mugongo estava menos isolada, a estrada mais perto e havia sempre pessoas que vinham vê-la, crianças que dançavam para ela e a amizade destas pessoas a cercava.

«A plantação encontra-se  no distrito de Mutura ao noroeste de Ruanda. Poucos lugares na terra podem rivalizar com seu panorama e seu esplendor bucólico. [...] A casa, de tijolos pintados de branco, era pequena e quadrada. Uma trepadeira  a recobria em parte, dando-lhe a aparência de estar firmemente ancorada ao solo.”  (103-104)

Em seu livro, Rosamond narra os costumes dos habitantes de Ruanda, os casamentos, a possibilidade para as mulheres de escolher seus maridos, de se divorciar ou de simplesmente abandoná-los. Mas os homens podiam, entretanto, ser polígamos. Havia comissões de arbitragem, mas se a mulher não estava satisfeita, podia deixar seu marido. As narrativas das mulheres de aventura sempre abordam perspectivas que os homens ignoram totalmente, como a situação das mulheres nos diferentes países.  Para eles, as mulheres são invisíveis.

Alegrias e problemas na plantação

Os elefantes, em grande número na época, ocasionavam grandes perdas nas plantações, mas ela nunca permitiu que fossem mortos. Apenas fazia expulsá-los, ao contrário de outros proprietários.

« Nunca ganhei a guerra contra os elefantes e honestamente não gostaria que fosse diferente.[...] As culturas ganhavam as encostas abruptas das montanhas. Pela metade dos anos 70, a maioria das manadas de elefantes haviam sido dizimadas pelos caçadores clandestinos ou haviam imigrado  para o lado dos vulcões, no Zaire. Em 1980, infelizmente, não havia quase mais nenhum elefante em Ruanda.” (134)

Seu grande projeto era plantar flores, pois o clima temperado e a altitude de Mugongo eram ideais para cultiva-las, vindas da Europa. Desenhou um jardim de tipo inglês com alas e maciços floridos em torno da casa. Hortênsias, roseiras, lavanda, narcisos, íris, agapantos, digitais púrpura, violetas, cravos, primaveras, ervilhas de cheiros. Estas flores atraíram cada vez mais clientes (137-138), tornando-se sua principal fonte de recursos, já que  as guerras pela independência impediram a venda de  pyrèthre.

Em Mugongo decidiu igualmente criar uma escola para os Hutus, pois poucos dentre eles eram escolarizados. As famílias contavam com a renda do trabalho das crianças e assim a escola funcionava somente  à tarde. Sua relação com a população era muito boa e nos domingos as crianças  vinham dançar em frente à sua casa, o que ela adorava .

Rosamond não estava isenta de emoções sentimentais e em 1957 encontrou o sueco Per Moller, personagem carismático para a pequena comunidade de mulheres e homens brancos do local. “ [...] tive de imediato a impressão que ele havia sido trazido especialmente para mim” diz ela.

Ele havia perdido tudo com a independência do Congo e viera refugiar-se com ela. Mas estes amores foram contrariados, pois sua homossexualidade estava latente e sua relação foi assim problemática. Falta de sorte, Rosamond:

«  Muitos anos foram necessários para que eu admita que Per não me daria nunca o que esperava enquanto mulher e que, apesar da intensidade de meus sentimentos, não podia fazer nada.» (142)

Depois disto, não falará mais de seus amores, mesmo se supomos que tenham existido. O importante é que não se deixou levar pelo dispositivo amoroso, que obriga toda mulher a se curvar ao AMOOORRR.

Sua casa  estava sempre repleta de animais de toda espécie mas as companhias fiéis eram Sheila, sua cachorra que a acompanhou durante 11 anos ( morta atropelada), sua gata Mia. Era muito apegada a seus animais e cada um que desaparecida era uma grande perda.

« [...] meus animais contaram com um número incalculável de cachorros e gatos, alguns macacos, uma cabra, um jumento, três papagaios, um antílope e dois guibs[7]. Uma de minha companheiras mais singulares foi um minúsculo antílope cinza chamada Betty” (150)

Um de seus empregados Sembagare, de  17 anos que havia contratado como chofer ( não sabia dirigir) acompanhou-a toda sua vida

«  Sembagare  trabalha para mim há mais de 40 anos. Ou seria eu que trabalho para ele? É difícil  dizer, algumas vezes. É meu melhor amigo [...] Cada uma das numerosas vezes onde estive à beira da falência ou inquieta do aspecto que tomavam os acontecimentos políticos, a coragem tranquila de Senbagare sua sabedoria acolhedora e sua fé espontânea sempre me sustentaram.[...] O jovem que contratei há tantos anos é agora meu sócio e o diretos de Mugongo. » (149)

 

E em seguida....

 

Em 1959 o rei Tutsi morreu subitamente com a idade de 48 anos. Rumores indicavam assassinato e problemas com a administração belga. Seu funeral, narra Rosamond, foi a última manifestação de poder de realiza; revoltas e problemas políticos começaram e o país foi dividido em dois campos políticos e étnicos.

As armas utilizadas nas hostilidades eram lanças, macetes, arcos, facões, famosos por decepar mãos e pés. O país foi ensanguentado, conta Rosamond, e os belgas enviaram soldados do Congo ; em 1960 o novo rei, Kigeri V exilou-se em Uganda acompanhado por 200 mil tutsis. Foi o primeiro grande êxodo. Se os Hutus haviam vencido os Tutsi, a falta de instrução tornou a retomada econômica e social do país extremamente difícil.

Rosamond  viveu todos estes acontecimentos , com refugiados passando diante de sua casa, fugindo sejam eles Tutsi ou Hutus, segundo o desenrolar da guerra. Período sombrio, mas ela não foi atingida pessoalmente . (179-182) Uma incursão ao campo de refugiados em Uganda quase lhe valeu a prisão naquele país, com todas as violências que isto implicava... mas ela conseguiu escapar da captura. Não fugia porém, da aventura.

A independência do Congo em 1960 foi um episódio  marcante na vida de Rosamond: os europeus, arruinados, expulsos ou assassinados pagaram caro a exploração a que haviam  submetido o país. Para Rosamond isto foi um pesadelo, pois sua propriedade localizava-se bem perto das fronteiras de Uganda e do Congo e as incursões armadas sobre o território de Ruanda tornaram-se frequentes a partir de 1961.

Segundo narra Rosamond, uma semana depois das eleições no Congo, os oficiais do exercito e da polícia se insurgiram e o país tornou-se caótico. (188)

«  Os soldados congoleses se dedicaram, de uma ponta à outra do Congo a uma série de estupros e assassinatos, visando a população europeia. Não se sabe quantas mulheres foram violentadas, mas dois médicos belgas afirmaram ter administrado injeções de penicilina a mais de 300 mulheres brancas que temiam haver contraído sífilis. Havia entre elas, religiosas. (188) »

Assim houve um grande êxodo de brancos para Ruanda,  entretanto também estava sujeita às violências congolesas

« Os habitantes de Kisenyi – o que era também meu caso- ficaram isolados dos bancos e do comércio de Goma, o centro das trocas da região. Encontrava-me sem dinheiros e com poucos víveres [...] Sozinha em Mugongo, tentava não pensar muito no fato em que estava a dez quilômetros da fronteira congolesa. . » (189)

O radio difundia histórias de horríveis massacres e divulgava apelos desesperados de socorro. A província de Katanga decidiu separar-se do Congo; Lumumba apelou à União Soviética e o país encontrou-se então com soldados belgas , soviéticos e congoleses além de soldados do corpo de paz internacional. Caos total. Lumumba apresentava-se como herói , considerado pela |União Soviética o facilitador para a entrada do comunismo na África.

« Lumumba afastou-se da população branca e a aterrorizou em vez de integrá-la como uma vantagem preciosa para o país. Não controlava seu exército e sua administração civil não havia sofrido teste nem prova. Os motins de suas tropas intensificaram-se para atingir um regime de terror irrepressível. “. »(197)

Patrice Lumumba foi afastado de seu posto de Primeiro Ministro exatamente três meses após sua tomada de poder e foi assassinado em 1961.(idem)

A insegurança era total. Os estoques de pyrèthre de Rosamond se acumulavam em toneladas. Seu ex- marido, Kenneth e seu amor impossível sueco Per, que estavam no Congo, vieram refugiar-se em Ruanda: instalaram-se em duas diferentes plantações próximas a Rosamond.  Ao menos não estava mais completamente isolada quando no início de 1961 os bandos congoleses entraram em Ruanda, a 10 km de sua casa. (192) Era, porém mais uma sensação psicológica de proteção que uma realidade. A vila mais próxima, Kisenyi, foi atacada, tendo sua população evacuada.

Rosamond, apesar de seu receio, recusou-se a partir, para grande consternação dos homens  :

«Minha recusa não foi motivada por um brusco acesso de coragem, mas sim pelo temor de partir. Estava aterrorizada pela ideia de deixar minha casa e todos meus bens, sem contar os animais e os trabalhadores que dependiam de mim. Além disto, todos meus preciosos livros estavam amontoados no terraço. Não podia verdadeiramente  deixar Mugongo naquele momento. .» (194)

Per et Kenneth ficaram com ela, bem contra a vontade.

Quem disse que as mulheres não tem coragem ?

Finalmente os paraquedistas belgas que patrulhavam as fronteiras os protegeram naquele momento.  Kenneth e Per voltaram para a Europa, assim como todos os outros amigos de Rosamond, que ficou só novamente. A insegurança estava ainda na ordem do dia e tornou0se quase crônica em Ruanda

As mulhres

Rosamond  escreve três capítulos em seu  no livro, sobre as mulheres que conheceu em Ruanda. Sublinha que:

“ Se tento rememorar as numerosas amizades e relações iniciadas na África, são sobretudo as mulheres que me veem à mente.»(215)

Explica que as mulheres em Ruanda são o centro da família e da economia agrária do país. “ [...] são as mulheres que cultivam os campos e carregam os fardos mais pesados. “[idem] Quanto às mulheres brancas, muitas delas amigas próximas, diz ela:  “[...] as experiências mais duras na África são muitas vezes vividas pelas mulheres. Dian Fossey e Alyette de Munck estão entre elas.” (idem)

Basta lembrar Karin Blixen e Rosamond ela mesma, por exemplo, cujos maridos passavam todo o tempo em seus safaris e as deixavam sós, com todos os problemas de gestão das plantações. Sem esquecer o desplante com que o marido de Karin Blixen contaminou-a com sífilis.

 

Alyette de Munk

Rosamond  admirava e gostava muito de Alyette :

«  Se todo mundo está de acordo para reconhecer seus excepcionais talentos de horticultora, de fotógrafa, de hostesse e de diretora de plantação, é antes de mais nada uma extraordinária aventureira.” (2115-216)

Em sua juventude, Alyette escalou vulcões em erupção, na companhia de Haroun Tazieff e explorou também durante várias semanas a floresta de Ituri, acompanhada somente de pigmeus bambutis. Para fotografar, aproximava-se tão perto dos vulcões em atividade que seus cabelos se tisnavam.      

«  Ela entra em um lugar como um turbilhão: sua franqueza e sua segurança são desconcertantes; sua compaixão, seu altruísmo fazem dela uma das pessoas mais generosas que já encontrei.” (215)

Esta é mais uma mulher de aventura desconhecida,  por ser mulher! Naturalista e colecionadora de serpentes, passou sua vida quase toda no Congo, vida muitas vezes ameaçada por sua temeridade. Sua vida caiu no anonimato, sina das mulheres de aventura, pois o patriarcado vela para que seja assim.

Com efeito, que história de colonização ocupa-se de mulheres, quer sejam nativas ou brancas? Tudo se passa como se elas não houvessem existido, pois a premissa é que a mulheres brancas pertenciam à esfera privada do social, logo, sem registro histórico. Quanto às nativas, eram apenas consideradas como carne de consumo sexual,  mão de obra escrava ou semi- escrava. Logo, sem importância.

Apenas com o advento dos estudos feministas  começou-se a notar a ação das mulheres em toda parte e em todos os domínios, em períodos de guerra ou de paz, muito além do molde doméstico no qual são alocadas. Em Ruanda, aliás, foram as mulheres que reergueram o país após o genocídio de 1994. Retomarei este tópico.

Dian Fossey [8]

Outra mulher branca que marcou profundamente Rosamond foi Dian Fossey, a « mulher dos gorilas », da qual tratarei em outro artigo. Sozinha em acampamentos precários ao pé das montanhas que abrigavam os gorilas, Dian Fossey desafiou os matadores clandestinos, os militares congoleses, a administração de Ruanda, a incompreensão e o machismo dos colonos.  Ela quebrou todos os moldes e estereótipos da representação do feminino para defender os animais com paixão e ardor.

No início mesmo Rosamond ficou abalada por esta determinação que a fazia esquecer as convenções. Por ocasião de um almoço oferecido pelo attaché militar americano, elas se encontram:

“ No momento em que chegava, fui abordada por uma jovem mulher excepcionalmente grande, vestida com um lindo vestido de linho lilás e calçada com tênis sujos.  Uma trança espessa caia-lhe pelos ombros. Seus olhos castanhos brilhavam  perscrutando-me. Sua atitude não mostrava nenhuma simpatia, nenhuma vontade de seduzir,  traindo uma inflexível determinação plena de desconfiança. (223)

Três dia antes, Dian escapara  de uma prisão militar congolesa e os tênis sujos eram seu único par de calçados. Rosamond apresentou-lhe Alyette que se tornou a melhor amiga de Dian, durante anos, ajudando-a em todos seus projetos e pesquisas de campo. (226)

Os gorilas estavam em vias de desaparecimento em Ruanda e Dian conseguiu não apenas deles se aproximar mas também  protege-los do assassinato implacável em busca de troféus: as mãos dos gorilas eram vendidas como cinzeiros e suas cabeças ornavam os muros dos caçadores certamente com problemas de virilidade.

 A baixeza e crueldade dos homens são realmente infinitas e quase inacreditáveis.

Rosamond  escreve sobre Dian :

«  Se Dian Fossey tornou-se com o passar dos anos uma de minhas amigas mais queridas, não deixava de ser, dentre todas as pessoas que conheci, uma das mais complexas e das mais enigmáticas. Podia ser adorável e engraçada e no instante seguinte desagradável e agressiva. Leal e generosa com seus amigos, era afetuosa e terna com as crianças e ferozmente protetora dos animais.” (241)

Dian foi com efeito a única protetora dos gorilas cada vez mais ameaçados e se dedicava a levar adiante uma política de ‘ conservação ativa’ contra os caçadores clandestinos; queimava seus campos, caçava o gado ilegal no Parque, destruía as armadilhas, fazia o papel das autoridades que não realizavam seu trabalho.

Rosemond reconhece que sem ela, não haveria mais gorilas em Ruanda. (249-251). Dian era chamada, entre os nativos de ‘ mulher solitária da floresta’.

Mas uma mulher como Dian, que desprezava todas as convenções e o papel que a sociedade esperava dela, que vivia como bem entendia, que não dependia da companhia de um homem, que havia se tornado famosa por suas pesquisas e seus resultados, esta mulher teve um destino terrível, mas já previsto: foi assassinada  em 1985.

Para  Rosamond,  a vida continua...

Para Rosamond, os anos 1970 foram tão difíceis financeiramente que foi obrigada a aceitar a direção de um hotel e alugar uma parte de suas terras para enfrentar as despesas da plantação e assegurar o pagamento dos trabalhadores. Entretanto, os anos 1980 trouxeram tranquilidade e prosperidade, porém com grandes mudanças:

« Converti Mugongo em plantação de flores ornamentais [...] Os campos de brancas margaridas foram aos poucos sendo substituídos por uma miríade de azuis, rosas e amarelos. [...] As flores de Mugongo tornaram-se muito requisitadas. Meus negócios começaram a prosperar como nunca antes. [...] Estes anos foram os mais agradáveis de minha vida.” (269 -271)

Ruanda teve também um período de prosperidade com a exportação de café e chá; uma nova categoria de europeus e de americanos foi atraída pela estabilidade política e econômica do país. Estruturas de transporte e de comunicação foram estabelecidas, o ensino fundamental e gratuito foi organizado, acessível a todas as crianças. Mas estudos secundários e universitários eram pagos, logo, mais restritos. Rosamond participou ativamente deste movimento de escolarização.

« Em 1982, com a ajuda de uma rede de amigos e parentes espalhados pelo mundo inteiro, coloquei em ação um programa de bolsas de ensino. [...] Pude assim auxiliar as centenas de jovens ruandeses a se engajar em carreiras de ensino, comércio, agricultura e administração.” (273)

Foram anos de paz. Rosamond tinha mais amigos/as, americanos que habitavam próximos a ela. A vida passava tranquilamente. Rosamond tinha já mais de 70 anos.

«  Os anos passavam. Ruanda enriquecia ao mesmo tempo  que eu. Não sei como aconteceu, mas brutalmente comecei a envelhecer. [...] Agradecia a deus cada dia de me ter dado Mugongo e uma vida tão feliz e completa.”(279)

De fato, nenhum deus tinha algo a ver com seus feitos e seus resultados. Ela os devia a sua subjetivação que a fez forte e determinada, corajosa, independente.

E ai, a guerra chegou.[9] Novamente.

 

Um mundo destruído: o genocídio dos anos 1990

O século XX foi um barril de pólvora prestes a explodir com a menor faísca. Seria muito longo enumerar todas as guerras, mas a título de ilustração eis uma lista não exaustiva: a revolução russa e seus gulag mortais, as duas guerras mundiais, os horrores dos campos da morte nazistas, as invasões da China pelo Japão e do Tibet pela China. As exações do comunismo chinês e seus guardas vermelhos, o genocídio no Camboja, a guerra da Coréia, da Indochina, do Vietnam, do Iraque, do Afeganistão, o barbarismo da divisão da antiga Iugoslávia, as sangrentas ditaduras latino-americanas, a guerra da Argélia e todas as guerras de Independência, etc. O estupro foi instituído como recompensa e arma de guerra, uma mutilação a mais, específica às mulheres e crianças. O genocídio ruandês faz parte desta ferocidade;

O exército congolês, constituído, sobretudo pelos descendentes dos Tutsis refugiados em 1959/60, invadiu Ruanda em 1990 para destituir o governo Hutu, presidido por Habyarimana durante 20 anos. Apesar de seu autoritarismo, o país havia aparentemente conhecido a prosperidade. Queria desfazer os confrontos étnicos, mas as diferenças subsistiam. Rosamond explica que, entretanto,

« Numerosos melhoramentos foram feitos à infraestrutura do país em matéria de transportes e de telecomunicações; construíram-se usinas hidroelétricas assim como um aeroporto internacional em Kigali. Projetos de reflorestamento foram iniciados; a salvaguarda  dos parques nacionais e da natureza tornou-se uma prioridade.Em 1990 o minúsculo Ruanda contava com mais terras protegidas por km2 que qualquer outro país no mundo” (285)

O pequeno exército ruandês (5 mil homens) começou a recrutar e treinar homens para se opor à invasão dos Tutsis-Ugandeses que tomaram o nome de Frente Patriótica Ruandesa- FPR. Uma milícia aramada  foi montada, a interahamwe , encorajada pelo governo em suas exações: foi o início da loucura assassina.

Foi assinado um tratado em 1991, rompido duas semanas depois e as incursões mortais continuaram. Rosamond explica que uma das exigências do FPR era o retorno dos ruandeses estabelecidos em Uganda, uma massa de 500 mil pessoas para um país já superpovoado. (290)

Em 1993 os invasores tomaram a província de Ruhengueri, massacrando e bombardeando em seu avanço. A casa de Rosamond estava bem perto desta invasão  e a embaixada lhe suplicava  que partisse o mais rápido possível.

« Une fois de plus, je refusai obstinément de quitter Mugongo. Comment aurais-je pu quitter ma maison et tous ceux qui comptaient sur moi pour les encourager et les rassurer ? »(290)

O parque nacional de Kagera, santuário ecológico e de preservação animal foi quase todo destruído , ¼ dele em chamas. Uma grande parte da fauna foi dizimada: rinocerontes, chimpanzés, leões, hipopótamos foram mortos bem como mais da metade dos 42 elefantes.

Por nada, pelo prazer de matar. Não há outra explicação.

Rosamond denunciou que entre 1990 e 1993 houve milhares de vítimas e a migração de mais de um milhão de pessoas. Os campos férteis haviam sido abandonados e a fome era um espectro próximo.

«  Sórdidos campos de refugiados foram estabelecidos ao longo da estrada entre Ruhengeri et Kigali (ver mapa ) . O coração dos refugiados e das famílias daqueles que haviam sido assassinados estava cheio de amargura [...] Eu partilhava sua indignação, mas não podia imaginar que o pior estava ainda para vir. “Os próximos acontecimentos fariam de Ruanda o símbolo da loucura humana”

No dia 6 de abril de 1994 o presidente Hutu Habyarimana foi assassinado. E o terror varreu então o país inteiro.

Evidentemente, o massacre de seres humanos em grande escala não era uma novidade no século XX. Em Ruanda, para finalizar o século, este massacre se fez sem limites: eviscerar, cortar mãos e pés por diversão, estuprar, pois há mulheres à disposição, matar com um prazer e um ódio inimaginável. 

Em 8 de abril a casa de Rosamond foi invadida por um grupo de jovens armados de porretes, rapazes que ela havia conhecido desde a infância. “ Sabemos que esconde Tutsis”, gritavam eles. O que era bem verdade. Mas ela os desafiou:

«  Já que vocês não hesitam em matar velhas mulheres, se querem matar alguém, estou aqui. Matem-me» (296)

Apesar desta atitude e coragem inusitados, 8 pessoas foram assassinadas em Mugongo naquele dia. A anarquia era total, pois as facções armadas se massacravam entre si e nos intervalos assassinavam os civis.

Cinco dias após o assassinato do presidente as violências eram tais que todos os estrangeiros foram evacuados a força. Em 9 de abril, Rosamond  foi retirada de Mugongo manu militari:

«  Despertei a 6 horas da manhã no domingo por soldados belgas [...] Você tem exatamente cinco minutos para arrumar suas bagagens! gritaram eles. Desta vez não tinha mais escolha. Atordoada, ainda vestida com a camisola juntei papéis preciosos, algumas fotografias, meu cofre de joias e algumas roupas em uma pequena valise.” (297)

Em um lapso de tempo de três meses 800.000 pessoas foram assassinadas, das quais 20.000 nos três primeiros dias. No fim de abril, 2 milhões de ruandeses haviam abandonado suas casas por campos de refugiados no interior e no exterior do país. Um mês depois,  estimava-se que a metade da população Tutsi de Ruanda havia sido assassinada, cerca de 500 mil pessoas, mulheres, crianças, homens, sem distinção. (300) “ Não há mais diabos no inferno; eles estão todos em Ruanda.” (idem)

Em julho inicia-se o êxodo de mais de 2 milhões de pessoas para o Zaire, a Tanzânia e o Burundi. (301) Os campos de refugiados nos países vizinhos eram um pesadelo, sem água, sem comida, sem privadas para  milhões de pessoas.

« Homens, mulheres e crianças aterrorizados entravam no Zaire em um ritmo de 10 mil por hora. [...] Havia entre eles todos meus vizinhos, meus trabalhadores e suas famílias, incluso Sembagare. Nos primeiros dias do êxodo, Mikingo e Sebashitzi, que não podiam mais ficar em Mugongo, fugiram também para o Zaire, abandonando minha casa e meus animais a seu triste destino. » (301)

Os tres meses de guerra deixaram milhares de órfãos, mais de 200 mil. Estima-se igualmente que 23 mil mulheres foram estupradas, sem contar as crianças. Tendo em vista o grau de selvageria e a inexistência de uma ordem social qualquer, poder-se-ia facilmente multiplicar por 10 esta cifra. Além disto, as mulheres violentadas eram repudiadas por seus maridos ou suas famílias, assim como as crianças geradas por estes crimes. [10]

As vítimas, como de hábito, tornaram-se culpadas. Para completar o horror deste quadro, um número incalculável de mulheres foi mutilado e infectado com a Aids.[11]

“ Algumas foram penetradas com lança, canos de revólver, garrafas ou galhos de bananeira. Seus órgãos sexuais foram mutilados a facão, com água fervendo ou ácido e certas mulheres tiveram os seios cortados. [...] Ainda pior, os estupros – a maior parte cometidos por vários homens um após outro foram frequentemente acompanhados de outras formas de tortura física e muitas vezes em público para aumentar o impacto do terror e da humilhação.[...] Frequentemente a violação precedia a morte. As vezes, a vítima não era morta, mas violentada muitas vezes e deixada com vida. A humilhação então, não afetava somente as mulheres, mas igualmente seus próximos. Outras vezes ainda, as mulheres eram utilizadas com outro objetivo: meio mortas, ou já sem vida, uma mulher era estuprada em público para servir de elemento de recrutamento dos Interahamwe. [12]

Pode-se ter uma ilustração mais clara do ódio dos homens em relação às mulheres? De sua irmandade na utilização do sexo para esmagar, degradar, humilhar, mutilar, afirmar sua “virilidade” através do medo, do sangue, da morte? Da violência doméstica à prostituição, a morte e o estupro representam a arma suprema do patriarcado para afirmar sua dominação?

Em 2008 o Conselho da ONU adotou uma resolução, 1820, que define o estupro como

“ [...] um crime de guerra, um crime contra a humanidade ou um elemento constitutivo do genocídio. De fato, estes crimes se tornam então imprescritíveis para o direitos internacional e o Conselho de Segurança  indica a exclusão deste benefício das medidas de anistia tomadas no quadro do processo de arbitragem dos conflitos.[13]

Foi preciso esperar o século XXI para que estes senhores quebrem a armadura de silêncio e a união da confraria masculina para denunciar a prática do estupro em massa. Nunca se viu um movimento da parte dos homens para manifestar contra a violência perpetrada contra as mulheres: o silêncio é cúmplice.

Mas sua história não termina aí.

Rosamond não escondia sua angústia :

“ Prostrada pela tristeza, deixei minha Ruanda bem amada (298) O desejo irrepressível de lá voltar me consumia. Era preciso voltar[...] era-me impossível abandonar meu país e seus habitantes no momento em que vivia suas horas mais trágicas”(303)

Três meses após o início da guerra e inúmeras peripécias, eis Rosamond de volta a Ruanda onde havia deixado tudo que lhe importava na vida. O FPR havia ganhado a guerra, com o alto preço da devastação do país .(302)

Ela encontra Kigali, a capital, em ruínas, sem água nem eletricidade. As organizações humanitárias começavam a chegar, mas havia ainda soldados por toda parte. Em Mugongo, sua casa estava saqueada, não restava senão as paredes.  

«  Não havia mais nada; tudo tinha desaparecido : a prataria de família, os copos de cristal, a porcelana, os espelhos, praticamente toda a mobília, todos os utensílios de cozinha, todas as roupas, as cortinas, os lençóis, as toalhas, as toalhas de mesa, todos meus preciosos livros, minhas fotografias [...] O duro labor e as lembranças de toda uma vida foram aniquilados[...] nunca havia sentido tanta aflição”. (309)

Teve, entretanto, a alegria de reencontrar seus dois cães e seu gatinho, quase mortos de fome, e também seus queridos empregados, os mais próximos:   Biriko, Mikingo, Sebashitzi e Sembagare, seu braço direito.

E ela volta a Mugongo, sozinha.

“ Olhando as peças vazias da casa, tive a impressão de retornar quarenta anos atrás[...] Recomeçava do zero, com a louça de plástico, caixas em lugar de cadeiras e nenhum utensílio de cozinha[...] um velho colchão sujo e afundado[...] seis colheres de chá de prata e algumas toalhas e guardanapos[...] Não tinha jamais possuído tão poucas coisas entretanto não havia ainda sentido uma tal serenidade. »(312)

Rosamond tinha enato  82 anos .

Em cerca de 4 meses e meio reorganizou sua casa e fundou um orfanato - Imbabezi- com a ajuda de organizações humanitária que chegavam no local. Ela que havia sempre querido ter filhos, teve 40 de uma só vez, todas as etnias confundidas, todos os dias chegando mais e mais crianças. (320)

O país estava longe de uma pacificação, pois os  Interahamwe- as milícias armadas- refugiadas no Zaire depois da vitória do FPR faziam incursões mortíferas e regulares em Ruanda. E a população se transformou, com a volta de meio milhão de Tutsis exilados e mais de um milhão expulsos dos campos do Zaire em 1996, entre os quais havia  Interahamwe, com seus facões e seu alucinado ódio.

A casa de Rosamond estava ainda no centro das lutas que se prolongavam. Em janeiro 1998 foi obrigada a mudar o orfanato de Mugongo para assegurar um mínimo de proteção às crianças.

«  Tudo foi carregado em 4 grandes caminhões. Roz, as crianças, todos os trabalhadores e suas famílias ( 140 pessoas sem contar os cães, gatos, cabras e galinhas ) se amontoaram em dois grandes ônibus .” (333)

Instalados em Gisenyi, a tormenta voltou a encontrá-los e em breve uma parte do orfanato tornou-se um hospital para os novos feridos e mutilados. A malária se espalhou e Rosamond foi atingida, quase morrendo. Mas em junho, foi obrigada a transportar as crianças – agora em torno de 100- para outro lugar, pois estavam novamente na frente de batalha. Mugongo foi de novo devastada e queimada.

Apenas em 2005, já com 91 anos que Rosamond pode voltar para sua casa em Mugongo e reinstalar o orfanato, com mais de 120 crianças, meninas e meninos. Seu livro, publicado em 1999 termina assim:

«  Cada noite, desejo uma boa noite às crianças e entro lentamente. [...] Subo as escadas de pedra que conduzem a minha pequena casa coberta de vinha virgem.[...]Sento-me em uma poltrona próxima ao fogo. Meu dia terminou.  Pergunto-me com uma ponta de excitação quais serão as novas aventuras que me reservam o amanhã”.»(328)

Sujeito político, mulher de ação, mulher de aventura. Seu processo de subjetivação, sua semiosis com o mundo termina no dia 29 de setembro de 2006, em Gisenyi, Ruanda.

Ainda uma pequena observação

Ruanda atualmente tornou-se um país em pleno crescimento, graças às mulheres que participam às decisões políticas (56% de deputadas na Assembleia) e que tomaram em suas mãos a economia do país e sobretudo, assumiram seu  destino.. [14]

 

 

 

 
[1]  Um documentário sobre   Rosamond ,A Mother's Love: Rosamond Carr & a Lifetime in Rwanda, foi produzido por Standfast Productions e dirigido por Eamonn Gearon .
> [2] Em 1926 - Bertha Landes foi a primeira mulher Prefeita de uma grande cidade,   (Seattle) nos Estados Unidos e abriu as portas da política às mulheres.  Isto foi certamente um momento de transição na ordem patriarcal.
> [3]  No Brasil, em 2013, as mulheres eram responsáveis por 30% da renda familiar. Ver  http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/10/mais-mulheres-sao-chefes-de-familia-e-jovens-optam-por-ser-mae-mais-tarde.html
[5] Ver artigo  de Lissia JEURISSEN2   « Colonisation au masculin et mise en corps de la féminité noire : le cas de l'ancien Congo Belge «  http://www.congoforum.be/upldocs/Jeurissen.pdf
[6]A  pyrèthre é um inseticida vegetal extraído das flores secas do crisantemo inseticida, igualmente chamado de pyrèthre de Dalmatie (Tanacetum cinerariifolium). Le Kenya é o maior produtor , seguido da Tanzânia. O epíteto designa o pó extraído das flores.  est le plus gros producteur de pyrèthre suivi par la Tanzanie.  
[7]   Espécie de antílope

[11]     Ver http://www.dd-rd.ca/site/publications/index.php?id=1377&lang=fr&subsection=catalogue